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06 de Janeiro de 2013

A Origem do 'Tim, Tim'

“Uma coisa favorável aos bêbados: nunca ninguém viu cem mil bêbados de um país querendo estraçalhar cem mil bêbados de outro país…” Millôr Fernandes.
 
A intolerância entre os povos, agravada por barreiras culturais, tem na mesa seu mais antigo e eficiente campo de entendimento e aproximação. E nela as bebidas cumprem papel fundamental. Historicamente gregárias, são responsáveis pela união entre os homens. Da missa aos bares, ao elevar dos copos a comunhão se estabelece.
 
Como na máxima anônima: “as águas separam os povos do mundo; o vinho os une”. E o momento síntese desta comunhão é o momento do brinde, quando, após algumas palavras de louvor, bebe-se à saúde de alguém, como voto de êxito ou em comemoração a algum acontecimento.
 
O brinde teria se originado na Antiguidade durante os acordos de paz entre impérios beligerantes.  O mediador do acordo deveria se levantar, proclamar a conclusão do mesmo e tomar o primeiro gole de bebida (normalmente vinho) para mostrar que esta não estava envenenada, demonstrando assim, a boa vontade entre as partes.
 
O caráter místico que nosso fermentado teve desde os primórdios, quando lhe eram atribuídos poderes transcendentes, levava muitos homens a dedicarem goles desta poção mágica à saúde dos amigos ou ao êxito dos combates. Celtas e gauleses, por exemplo, punham a circular um vaso cheio de vinho, de mão em mão, bebendo-se à pessoa que se queria honrar. Cada conviva dizia, olhando-a: “a ti bebo“.
 
O ato do brinde com toque de copos nasceu, segundo Alfredo Saramago, em seu livro “O vinho do Porto na Cozinha”, em uma época em que se utilizavam recipientes de metal ou vidro fosco, que não deixava que se visse a quantidade de vinho que tinha sido servida. “Para que não houvesse enganos, durante as saúdes os copos deviam se tocar para os dois oficiantes da saúde saberem que o copo que tocavam estava tão cheio como o seu. Tratava-se de uma oferenda e ao mesmo tempo de um gesto de delicadeza, para que ninguém ficasse mal servido”. Também se elevava, como ainda hoje, o copo à altura do coração, ou da fronte, para imprimir mais intensidade ao bonito gesto do brinde.
 
Existe uma outra versão, esta mais poética, para o ato de tilintar as taças ao brindar-se. Dionísio, o deus grego do vinho e da fertilidade, teria iniciado a prática de fazer som percutindo as taças umas nas outras para tornar completa a experiência sensorial de degustar-se um vinho. Essa, até então, só evocava quatro dos cinco sentidos: visão, olfato, tato (na boca) e paladar. A audição estava ausente.
 
O primeiro registro da palavra “brinde” na língua portuguesa data de 1651, no livro “História Universal dos Impérios, Monarchias, Reyno & Províncias do mundo” do padre Manoel dos Anjos. Sua origem etimológica seria alemã, vindo da expressão “ich bring dir’s”, algo como “bebo por ti”. Algumas fontes atribuem, ainda, a origem desta palavra à cidade de Brindisi, no sul da Itália.
 
Apesar de sua origem ancestral, o ato de brindar só se popularizou no século XVI quando começou a virar moda na Inglaterra. Em inglês, a tradução de brinde é “toast” (torrada) e deriva do costume de colocar pão torrado num cálice para dar-lhe sabor de vinho. Quando bebia-se à saúde de alguém, era preciso esgotar o cálice para então chegar a torrada embebida.
 
Desde então, brindar passou a fazer parte da tradição cultural de todos os povos. Criar frases de efeito, que vão de cômicas à poéticas, transformou-se em arte. Podem-se homenagear pessoas, ocasiões etc, mas são feitos principalmente em ode à bebida e à vida. Normalmente os brindes, não por acaso, começam no final da refeição, depois do prato principal ou da sobremesa, momento em que estamos em paz com nossos estômagos e com a língua mais solta. Segue uma ritualística: pode-se chamar a atenção dos convidados batendo com um talher na taça ou copo, diz-se o brinde, que pode ser apenas o clássico “saúde”. Só depois bebe-se. No entanto, todos devem beber, de preferência, bebidas alcoólicas. Bate-se levemente com o copo no copo de cada um dos bebedores, olhando-os, olhos nos olhos, mesmo que à distância.
 
Brindes já fazem parte até da mais tradicional etiqueta, como “O Livro de Etiqueta”, de Amy Vanderbilt, onde a autora americana chega a oferecer ao leitor uma prática lista de brindes em diversos idiomas:
 
• Os franceses dizem “santé” ou “salut”, o que já deixa a boca no formato ideal para receber pequenas quantidades de bebida.
 
• Os espanhóis erguem suas taças dizendo “salud”.
 
• Os italianos gesticulam ao som de “salute”.
 
• O universal “tim-tim”, ou “chin-chin”, não é apenas uma onomatopeia para os chineses. Lá “chin” significa “felicidade”, e “chin-chin”, “muita felicidade”.
 
• Não confunda: em japonês o brinde é outro, diz-se “kampai”, que quer dizer “copo vazio”.
 
• Alemães dizem “prosit” se a ocasião for informal, e “zum wohl” se for a sério.
 
• Para os holandeses, um “proost” fará o serviço.
 
• Os russos dizem, sem enrolar a língua, “na zdorov”, ou “felicidade”, semelhantes aos poloneses e búlgaros que gastam menos letras para dizer “na zdrve”.
 
• Entre os árabes que bebem diz-se baixinho “fi sihitaek”.
 
• Em ídiche (judeu), toda a família diz junta “l´chayim!”, “à vida”.
 
• Na língua de Platão, pode-se dizer “steniyasas”, “à saúde”.
 
• Na língua de Ghandi brinda-se “aapki sehat”.
 
• O mais curioso, contudo, vem dos nórdicos da Suécia, Dinamarca e Noruega. Ao levantar suas taças, dizem “skäl”, que significa singelamente “caveira”. A origem vem do costume Viking de beber cerveja nos crânios de seus inimigos, esvaziados e limpos como se fossem canecas.
 
Enaltecer a bebida ou as circunstâncias de seu consumo faz parte de um ritual de comunhão que todo bebedor conhece. Aguça o paladar dos presentes, torna as qualidades do líquido ainda mais extraordinárias, e transforma cada ocasião em um evento único e especial.
 
Revista Adega
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